segunda-feira, 16 de julho de 2018

Pétalas de solidariedade

Seis horas da manhã. A brisa suave que vem do mar quase já não tem mais o cheiro ácido da varrèche. A claridade começa a se espalhar por sobre as águas calmas em frente ao vilarejo de Abacou. Vozes de homens, mulheres e crianças avisam que o dia já começou.

Um bom banho prá tirar o calor da noite do corpo e um café prá acordar de vez marcam o início do dia. Com Frei Ademar e Frei Sérgio tomamos o mate na varanda e as conversas se alongam até oito horas. Frei Sérgio está aqui em Abacou há quase oito anos. Além do cuidado na construção da casa dos frades, do Dispensário e da Igreja Paroquial, sua dedicação principal foi com a educação. Além do colégio que atende atualmente 400 crianças, a escola de informática Frère Soleil é a grande inovação para as crianças e jovens que terão que enfrentar o mundo digital. E manter uma escola de informática em lugar tão isolado não é desafio pequeno. Para a energia, os painéis solares foram a solução. Os computadores foram doados por várias instituições internacionais. Quanto ao sinal de internet, esse não foi o problema. A telefonia digital é uma das poucas coisas que funcionam no país. O desafio maior foi superar a pedagogia da palmatória ainda vigente na cultura local. Hoje, tanto a escola de informática como o colégio são dirigidos por um frade haitiano, frei Abel. As palmatórias, por um tempo aposentadas, voltaram a funcionar...

Depois do café, uma visita à comunidade das Irmãs de Santa Catarina, há uns cinquenta metros da casa dos freis. Irmã Rute e Irmã Nazaré nos acolhem com alegria e carinho. Irmã Liane que aqui também vive, está no Brasil cuidando da saúde. A atividade principal das irmãs aqui é o Dispensário. Trata-se, na prática, de algo similar a uma unidade de saúde que faz a atenção básica. Irmã Rute é enfermeira e faz tudo o que em outros lugares muitos médicos não sabem ou não querem fazer. Desde o atendimento de partos inacabados até suturas de ferimentos de machado ou facão, dois acidentes de trabalho muito frequentes. Solène, a enfermeira francesa, ajuda na parte da farmácia. As condições são precárias, mas a ajuda dada à população é impar.

Às dez horas, com o calor já batendo nos quarenta graus, partimos para Belab. Aí está a construção da casa que servirá para a formação dos novos frades haitianos. Frei Ademar aqui é o “boss”. Ele supervisiona o trabalho das diferentes equipes que já colocaram os fundamentos e as vigas e se preparam agora para começar a fazer a construção sair do chão. Além de supervisionar este trabalho, Frei Ademar também cuida da construção da futura casa das Irmãs de Santa Catarina aqui em Belab. Por enquanto, numa casa alugada, estão irmã Claudete e duas postulantes haitianas.

Depois do almoço partimos para o lado norte da península. Vamos a Corail. Irmã Claudete vai conosco. Lá vivem as irmãs Sueli e Deusa, duas Irmãs de Santa Catarina. Lá também vive um capuchinho francês, frei Jean Pierre. Ele trabalhou toda sua vida de frade na República Centro Africana. Ao voltar à França, não pôde se adaptar ao estilo de vida europeu e optou por integrar-se à missão no Haiti. Irmão leigo, ele é um faz-tudo, desde a mecânica de motores até o telhado da casa. Desde que um furacão, há dois anos, destruiu esta região do país, ele, com toda calma e tenacidade, entre um cigarro e outro, ocupa seu tempo a reconstruir a infraestrutura da missão.

As irmãs, Sueli e Deusa, mantém um Dispensário no centro da cidade. Com esta atividade, elas complementam o trabalho que os médicos cubanos fazem no hospital público. Irmã Deusa tem formação em Enfermagem. Irmã Sueli foi minha aluna de Teologia e aprendeu na prática como cuidar da saúde das pessoas que chegam ao dispensário precisando de remédios e, sobretudo, de compreensão e carinho.

A viagem de Les Cayes a Corail nos poupou o trabalho de assistir a derrota da Seleção Verde-amarela para a seleção da Bélgica. Enquanto Neymar caía e levantava no terreno russo, nós subíamos e descíamos as montanhas pedregosas que deram a este país o nome de Haiti. Na língua dos povos nativos que aqui habitavam e foram exterminados pelos espanhóis e franceses, “Haiti” quer dizer “país das altas montanhas”. A estrada é a única a fazer a ligação entre o leste e o oeste do país, da capital Porto Príncipe a Jéremie, a segunda cidade do país. Sua reconstrução foi iniciada por uma empreiteira brasileira logo após o terremoto de 2010. Com a destruição das empreiteiras brasileiras pela Lava Jata, os trabalhos foram assumidos por uma empresa dominicana. A falta de recursos e as dificuldades da geografia fazem com que o avanço seja muito lento.

Os últimos dezesseis quilômetros, depois do entroncamento que dá a Jéremie ou a Corail, estão ainda em estado muito precário. Mas já estiveram bem piores, nota irmã Claudete que aqui viveu seus dois primeiros anos no país. Para percorrê-los, foi necessário quase uma hora. Em fim, ao chegar, depois de um total de quatro horas de caminho, deparamos com as coloridas águas do Caribe e o salpicado de pequenas ilhas que pontilham a pequena baía em que está localizada a cidade. Corail remonta à primeira ocupação francesa da região. A paróquia local tem mais de duzentos anos. Espremida entre a borda do mar e a íngreme montanha, a população vive amontoada nas poucas quadras que se formam entre as duas ruas que se alongam no sentido leste-oeste. A densidade populacional em tão pequeno espaço, a ausência de saneamento e a escassez de água doce faz com que as doenças ligadas às difíceis condições de higiene sejam uma constante no local. Muito trabalho para as irmãs e para os médicos cubanos.

O fim de tarde e a noite foram de muita conversa franco-brasileira. Depois de uma boa noite de sono, levantei às quatro e meia da manhã para do alto, onde está localizada a casa das irmãs e do frei, contemplar o avanço da luz e das cores sobre a cidade, as águas e a ilhas. Uma verdadeira ode ao Criador de todas as coisas.

Depois do café e de outra sessão de conversa acompanhada de um bom chimarrão, hora de fazer o caminho de volta, subir a íngreme encosta, passar por entre as montanhas e descer do outro lado. Quando nos aproximamos de Camp-Perrin, já quase na planície, a notícia: a estrada a Les Cayes está trancada! O governo, sob pressão do Fundo Monetário Internacional, deixou de subsidiar o preço dos combustíveis. O tarifaço resultante levou ao bloqueio de todas as rodovias do país e ao caos na capital. Depois de quatro horas de espera e mais duas tensas horas por estradas vicinais em condições peníveis, o valoroso Toyota com tração nas quatro rodas e o fluente créole de Frei Sérgio lograram conduzir-nos até Béraud onde deixamos irmã Claudete e retornamos a Abacou. As peripécias do dia impediram que pudéssemos visitar  comunidade das Irmãs do Imaculado Coração de Jesus em Béraud. Fica para a próxima... Às dez e meia da noite, depois de um breve lanche, um banho e a cama para descansar da longa jornada.

Enquanto o sono avançava sobre os membros aturdidos do corpo, o cérebro buscava processar as muitas imagens e as muitas conversas destes dois dias de convivência com religiosos e religiosas brasileiras que, nas difíceis condições da realidade haitiana, tentam ser um sinal de fé e esperança. São pequenos sinais, mas são pétalas de solidariedade que colorem e perfumam a esperança de uma vida melhor para o povo haitiano e esperança de que o Reino de Deus que tanto esperamos se torne realidade viva e palpável no meio de nós.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Vers le Grand Sud


São duas da tarde. Um calor tremendo. Quase quarenta graus. Ar seco e um vento quente que faz balançar os galhos das árvores ao redor da casa. Depois de cinco dias de retiro com os freis capuchinhos da Delegação do Haiti, nos preparamos para descer o morro e tomar o caminho do Sul em direção a Les Cayes e de lá a Abacou onde residem Frei Sérgio e Frei Ademar. Digo “descer” porque a Casa de Retiros das Irmãs da Caridade de São Luiz onde estivemos nesses dias está na parte alta da cidade de Porto Príncipe.

Como todas as cidades, a capital do Haiti também tem suas particularidades geográficas. Uma das que mais chamam a atenção é a sua organização, digamos, vertical. A Pérola do Caribe, como foi e ainda é chamada, está situada na Golfo de Gonâves, no Caribe Ocidental. A parte rente ao mar é plana e, por isso, conhecida como “La Plaine”. É uma área residencial, a maior da capital talvez, que se prolonga ao longo da costa até as primeiras elevações. Além do porto e dos mercados ao seu redor, há bairros que vão desde a miserável Cité Soleil até áreas de classe média baixa com seus pequenos comércios, escolas, igrejas e produção artesanal em torno à construção civil: blocos de cimento, esquadrias, portas, janelas, portões... Quase tudo é feito à beira das ruas, sob toldos abertos cobertos de zinco.

Depois da “La Plaine”, nas primeiras elevações do terreno, está o Centro Histórico da Capital com as principais edificações públicas e a sede de bancos, empresas internacionais e lojas de marcas tradicionais que podem ser encontradas em qualquer grande cidade do mundo. Chama a atenção a iluminação pública que tem sua energia gerada por um sistema fotovoltaico. Não se passa despercebido também pela antiga sede do governo haitiano imitando o Capitólio de Washington. O terremoto de 2010 deixou-a em ruínas e até hoje, por decisão governamental, nada foi feito para reconstruí-la. Há outras urgências a sanar. Do mesmo modo a antiga catedral em estilo barroco. Aí está ostentando suas ruínas a espera de tempos melhores para ser reerguida. Sábia decisão, por alguns criticada, mas firmemente mantida, não se sabe se por falta de dinheiro ou por opção pastoral, pelo novo Arcebispo de Porto Príncipe.

Passando o “Centre Ville” sobe-se por estreitas avenidas buscando os pequenos platôs na encosta da montanha que do alto guarda, qual fortaleza, a Pérola do Caribe. Depois de 20 ou 30 minutos de íngreme subida chega-se a Pétionville. Essa região da capital é constituída por uma série de pequenos espaços planos separados uns dos outros por ravinas que o tempo, as chuvas e os terremotos foram rasgando e que, de tempos em tempos, se ampliam e fecham ao sabor dos aleatórios fenômenos cósmicos e telúricos e da pressão demográfica sobre a já superpovoada encosta da montanha. Estes pequenos platôs da cidade são ocupados pela população mais rica da cidade. Aí estão os colégios particulares, restaurantes, shoppings, clubes, hotéis... tudo o que essa pequena parcela da população pode pagar. Entre um platô e outro, tanto acima como abaixo, milhares e milhares de casas que se mantem suspensas sobre os abismos por forças que talvez nem a física possa explicar.

Desde a Casa de Retiros onde nos encontramos pode-se avistar, durante o dia, todas estas diferentes camadas verticais da cidade. De noite, apenas avistam-se algumas luzes dos platôs de Pétionville. As ravinas e encostas com suas milhares de casas feitas com blocos de cimento, ficam quase que completamente às escuras. Nessa região da cidade, não há luz nem água. A partir do entardecer, aqui e ali, algumas fogueiras mancham de vermelho a escuridão que cai lentamente sobre a capital. Pouco a pouco elas se se apagam e o breu toma conta de toda a encosta da montanha, salvo o seu alto. Lá em cima, acima de tudo, no alto da montanha, as luzes das mansões dos mais ricos entre os ricos parecem assinalar que, acima da cidade de Porto Príncipe, há o céu dos príncipes que, de vez em quando, para se livrar do caos do trânsito provocado pela falta de energia que torna inúteis as sinaleiras colocadas em cada entroncamento, dão-se ao luxo de subir até suas mansões em helicópteros alugados por empresas estrangeiras. São as várias camadas da cidade, qual torta recheada, a demonstrar, quase que geograficamente, a estrutura dessa sociedade que leva à exacerbação a iniquidade tão característica das sociedades latino-americanas.

Como dizia no início, é hora de partir. Frei Sérgio vai ao volante da camionete. Frei Ademar e Frei Fanfan, um jovem frade haitiano recém-regressado do Brasil, seguem atrás. As tortuosas ruas vão deixando para trás Pétionville, seus platôs, suas ravinas e suas casas penduradas sobre o abismo. Depois de alguns engarrafamentos típicos da falta de regras no trânsito, nos dirigimos em direção à saída sul da cidade. Depois do Cafù a cidade começa a ralear. O ritmo do avanço da camionete é ditado pelas paradas das Tap-Tap, dos caminhões de carvão e dos pedestres que cruzam as ruas. Pouco a pouco o cinzento da cidade vai sendo substituído pelo verde das árvores sob as quais estão construídas as pequenas casas agora umas mais espaçadas das outras. À direita o Golfo de Gonâves. À esquerda as elevações da península sul que se estende até Géremie e de lá aponta para Jamaica e Cuba. Na planície à direita que se amplia à medida que avançamos, plantações de cana de açúcar. Fecho os olhos e retrocedo 400 anos no tempo e imagino os invasores franceses estabelecendo suas plantações de cana e seus engenhos para abastecer a Europa com o “ouro branco”.

Aqui no Haiti, em Guadalupe e Martinica foram os franceses. Logo ali adiante, na Jamaica, na Guiana, Belize e Nicarágua os ingleses. Em Arruba, Curaçao e Suriname, os holandeses. Todos eles buscando romper o monopólio da Espanha para a qual só restou Cuba e Puerto Rico. O Mar Caribe que luz azul à minha direita e suas férteis e quentes terras pelas quais andamos, durante três séculos, foi duramente disputado pelas emergentes potências europeias que alimentavam de doces as mesas da decadente nobreza e enchiam os cobres de ouro da emergente burguesia que com a força do trabalho dos milhões de homens e mulheres escravizados trazidos da África acumulava capital para a Revolução Comercial que depois se tornaria Industrial com o famoso triângulo Europa-África-América da primeira globalização capitalista. Em cada rosto de cada homem e de cada mulher que caminham ao longo da estrada que leva de Porto Príncipe a Les Cayes está impressa de forma indelével a história das “veias abertas da América Latina e Caribe” magistralmente descritas pelo inolvidável Galeano.

Depois de três horas de caminho a estrada volteia para a esquerda, cruza as colinas da península sul e se joga sobre a beira do Caribe. O azul das águas típico da região, em alguns pontos, está nesta estação do ano manchado de verde. São algas que, nos últimos anos, proliferam com abundância superior à tradicional. Talvez seja a poluição que altera a composição da água ou o aquecimento das águas do Caribe. Os cientistas e políticos só vão se preocupar com isso quando elas chegarem aos resorts e praias frequentadas pelos norteamericanos e europeus. Aqui as algas se acumulam na praia e apodrecem gerando um cheiro de vinagre e jogando sobre as casas um ar ácido que tudo corrói. É a varrèche que atormenta os habitantes das águas e das terras das ilhas do Caribe.

Mais uns quilômetros e estamos em Les Cayes, a cidade mais importante da região. Deixamos o asfalto e por um caminho de chão seguimos costeando o mar em direção a Saint Jean d’Abacou. Faltando pouco para as nove da noite chegamos na casa onde Solène nos espera com uma gostosa sopa. Solène é uma jovem enfermeira francesa. Ela deixou Paris para, junto com as Irmãs de Santa Catarina que aqui residem, cuidar da saúde dos moradores deste pequeno canto do mundo. Afinal, a solidariedade não tem ponte de partida e nem ponto de chegada. Ela é o carinho dos povos capaz de apagar um pouco da dor provocada por quinhentos anos de colonialismo e mostrar a verdadeira doçura presente em todo o coração humano.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Platão em Cité Soleil

Pela primeira vez na vida sou tentado a concordar com Platão. Aqui, neste lugar pelo menos, pode ser que Platão tenha razão. Esse não é o mundo real. Corrijo: este não pode ser o mundo real. E, no entanto, ele está aqui, bem na minha frente, bem ao meu redor.
São dez horas da manhã. O sol escaldante de quase quarenta graus transforma as úmidas ruas de Porto Príncipe em nuvens de pó que se levantam a cada Tap-Tap que passa repleta de homens e mulheres de todas as idades. O colorido berrante dos 4X4 adaptadas para o transporte público contrasta com o rosto sombrio da maioria de seus passageiros. Na longa e ampla avenida que separa a Zona Portuária do aglomerado de Cité Soleil, a cada cinquenta ou cem metros, um pequeno grupo de pessoas se aglomera em torno a um pastor que chama à conversão e à prosperidade em Jesus. Ao lado dos prédios das igrejas com as denominações as mais chamativas possível, pequenos quiosques que vendem loterias que prometem fazer milionários.
Vou numa camionete com Padre Renato para uma missa na comunidade da Missão Belém. Padre Renato é catarinense. Há quase dez anos deixou sua terra e sua diocese e veio se juntar à missão capuchinha no Haiti. Morou um tempo na região sul da ilha e agora está na capital. Fala perfeitamente o francês e o créole, a língua falada por toda a população. No fim da avenida dobramos à direita por uma estreita rua. À esquerda, uma grande planície de lama, lixo e plástico. Sobre os monturos que se formam pela força da água e do vento, porcos, vacas e crianças. Cada um buscando algo para sobreviver. Cortando a planície, uma grande vala que faz às vezes de rio. Quando chove na parte alta da cidade, a água desce transportando toneladas e toneladas de lixo orgânico e inorgânico de toda espécie. Tudo deságua na Bahia de Porto Príncipe.
Às vezes, no entanto, a combinação de assoreamento, vento e maré alta, faz com que o fluxo se inverta e um mar de lixo transborda sobre Cité Soleil. Ela está à minha direita. Um aglomerado sem fim de pequenas casas em quarteirões geometricamente dispostos. No interior dos quarteirões, pequenas ruelas permitem o acesso às casas que ocupam todos os espaços possíveis. Há casas de blocos de cimento, de lata, de telhas de zinco, de papelão e de tecido. Nas ruas, crianças, crianças e mais crianças... Junto delas, muitas mulheres. Homens, parecem aqui seres invisíveis.
Chegamos à Missão Belém. Ali nos esperam três irmãos e duas irmãs da comunidade de vida que iniciou em São Paulo acolhendo moradores de rua. Em 2010, após o terremoto que destruiu Porto Príncipe e deixou em torno de 300.000 mortos, um grupo desses irmãos e irmãs para aqui se deslocaram e iniciaram seus trabalhos. Além da escola para 1.400 crianças, garantem uma refeição diária – que para a maioria é a única – e assistência médica básica para as crianças e suas mães. Recursos para isso? O trabalho dos cinco voluntários que aqui estão e a colaboração de brasileiros e italianos que, movidos pela fé, tentam fazer algo em favor desta população.
A missa, animada ao som do atabaque, se prolonga por hora e meia. Padre Renato flui belamente em créole. Acompanho adivinhando através da sonoridade as aproximações com a língua francesa. Ao meu lado no banco, três meninos que dividem sua atenção entre as palavras do padre, o som do atabaque e a minha pele branca. No final, a convite do Coordenador da Missão, faço uma pequena saudação em meu esforçado francês.
Ao fim da missa, sem pressa, as mães partem acompanhadas por seus filhos. O galpão vai ficando vazio. Nos despedimos dos irmãos e irmãs da Missão Belém e retomamos o caminho de casa. À direita, a grande planície de lixo, lama e plástico. À esquerda, o mar de casas de Cité Soleil. Será esse o mundo real? Não sei. Tampouco vou perguntar a Platão. Ele nunca esteve aqui...
Mas o que, tenho certeza, é real, são os três meninos que estiveram a meu lado durante a missa, a centena de mulheres e crianças que rezaram e cantaram ao som dos tambores e a presença de Padre Renato e dos irmãos e irmãs da Missão Belém. Tudo isso é muito real num mundo que nos quer fazer crer no irreal.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

VALHA-NOS PLATÃO!

Platão não está entre minhas referências filosóficas. Por motivos que vão deste a metafísica até o estilo de argumentação. Na metafísica, minha discordância é quanto à irrealidade do mundo material em que vivemos. Minha hérnia de disco e meu estômago desmentem Platão! Quanto ao estilo da argumentação, os ditos diálogos platônicos não passam de monólogos com a farsa do ventríloquo que sempre diz ou é levado a dizer o que o mestre quer. Em linguagem futebolística, o parceiro de diálogo de Platão sempre deixa a bola picando para que o filósofo faça o gol. Assim não tem graça... É sempre de goleada que Platão vence as contendas filosóficas em que ele joga dos dois lados.
Mas não por isso menosprezo o pensamento e a obra platônica. Quem sou eu para tal! Foi um grande intelectual que conseguiu apresentar como pretensamente universalizável o modo de pensar da elite dominante da Atenas clássica.
Em sua ampla labuta filosófica, o objetivo era o de chegar à verdade mais estável possível, ao conceito puro que revelasse a essência real deste mundo irreal que se mostra na multiplicidade dos objetivos variáveis. Essa era, para Platão, a tarefa do filósofo.
Sem deixar de perseguir este objetivo, o filósofo da amplitude, para ajudar seus discípulos no caminho das ideias puras, fez uso do artifício das imagens e produziu algumas das alegorias mais famosas da cultura Ocidental. Todos conhecemos, por exemplo, “a alegoria da caverna” onde Platão tenta mostrar a diferença entre a verdade e a ilusão na qual a maioria das pessoas vivem.
Mas há uma alegoria, não tão conhecida como a primeira, através da qual, no Livro VI do A República, o filósofo ateniense argumenta na defesa de que só aos filósofos deveria caber o governo dos Estados. É a “alegoria do navio”. Assim diz Platão:
O tratamento que os Estados dispensam aos homens mais sábios é tão duro que não há ninguém no mundo que sofra outro semelhante e que, para criar uma imagem, aquele que pretende defendê-los é obrigado a reunir os caracteres de múltiplos objetos, à maneira dos pintores que representam animais metade bodes e metade veados e outras misturas do mesmo tipo. Agora imagina que algo semelhante a isto se passa a bordo de um ou de vários navios. O comandante, em compleição e força física, sobrepuja toda a tripulação, mas é um pouco surdo, um pouco míope e possui, em termos de navegação, conhecimentos tão curtos como a sua vista. Os marinheiros disputam o leme entre si; cada um julga que tem direito a ele, apesar de não conhecer a arte e nem poder dizer com que mestre nem quando a aprendeu. Além disso, não a consideram uma arte passível de ser aprendida e, se alguém ousa dizer o contrário, estão prontos a fazê-lo em pedaços. Atormentam o comandante com os seus pedidos e se valem de todos os meios para que ele lhes confie o leme; e se, porventura, não conseguem convencê-lo e outros o conseguem, matam estes ou os lançam ao mar. Em seguida, apoderam-se do comandante, quer adormecendo-o com mandrágora, quer embriagando-o, quer de qualquer outra forma; senhores do navio, apropriam-se então de tudo a que nele existe e, bebendo e festejando, navegam como podem navegar tais indivíduos; além disso, louvam e chamam de bom marinheiro, de ótimo piloto, de mestre na arte náutica, aquele que os ajuda a assumir o comando, usando de persuasão ou de violência em relação ao comandante, e reputam inútil quem quer que não os ajude. Por outro lado, no que concerne ao verdadeiro piloto, nem sequer suspeitam de que deve estudar o tempo, as estações do ano, o céu, os astros, os ventos, se quiser de fato tornar-se capaz de dirigir um navio. Quanto à maneira de comandar, com ou sem a aquiescência desta ou daquela facção da tripulação, não pensam que seja possível aprender isso, pelo estudo ou pela prática, e, ao mesmo tempo, a arte da pilotagem. Não acreditas que nos navios onde acontecem semelhantes cenas o verdadeiro piloto será tratado pelos marinheiros de indivíduo inútil, interessado apenas em observar as estrelas?
Ao ler esta alegoria, retomo minha afirmação inicial de, ao mesmo tempo que discordo, também devo concordar com Platão. Discordo da afirmação do sábio ateniense de que só aos filósofos deveria caber o governo das cidades. Ele mesmo, em suas várias tentativas de influenciar o poder na Sicília, encontrou o fracasso. Afinal, diferentemente do que pensava Platão, o mundo das ideias é o mundo irreal. Principalmente no campo da política. Esta é a arte de governar o mutável das relações humanas. E isso não é para filósofos. Ao menos para os filósofos tal qual os pensava Platão.
Mas a alegoria que ele constrói, por usar os elementos da fluidez do quotidiano, serve muito bem para ilustrar o modo como o Estado, tanto no templo de Platão como hoje, é dirigido. Se tomarmos a atual crise brasileira, parece que Platão tinha razão: os que não conhecem a arte de navegar tomaram o timão e estão conduzindo a nau brasilis para o fundo do abismo. E o pior, como assinala a alegoria, parece que eles não têm o menor interesse em aprender a governar. Simplesmente locupletam-se na posse do timão sem importar-se com o destino do navio, dos tripulantes, dos passageiros e deles próprios. Além de expulsarem o antigo comandante, parece que beberam toda a mandrágora e todo álcool que estava a bordo. Salve-nos Platão deste tipo de governantes!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Dando voltas na memória


Por uma destas contingências da vida, fiz meu Mestrado em Teologia na Universidade Católica de Lyon, na França.Uma bela Universidade, de não longa tradição se comparada com outras Universidades europeias, mas que foi, durante muito tempo, uma referência no ensino de Teologia.
Situado na Place Carnot, no centro da principal cidade do Vale duRhône, o prédio principal da instituição mantém o seu estilo clássico francês. Nada de inovações arquitetônicas nem de negociações com as sedutoras comodidades da modernidade. Era a pura tradição de uma instituição de ensino que se propunha fiel às tradições da sociedade e do catolicismo gaulês.
Tudo no prédio era original. Portas, janelas, fechaduras, vidros, mesas, cadeiras... remetiam à segunda metade do séc. XIX. Bonito, charmoso, mas incomodo. Sobretudo incômodas eram as mesas e cadeiras, mormente as da biblioteca. Desenhadas para uma época em que a altura média dos franceses não chegava a um metro e sessenta, elas tinham dificuldades em oferecer comodidade – mesmo a um brasileiro! – para quem passou do metro e oitenta. Quem se sentia muito cômodo para trabalhar naquele espaço era o professor Christian Duquoc. Aposentado daquela universidade, o eminente teólogo dominicano era assíduo e pontual em sua presença na bliblioteca. Todos os dias, das duas às cinco da tarde, lá estava ele. Sempre no mesmo lugar. Era seu lugar que ninguém ousava ocupar, nem mesmo antes de que ele chegasse ou depois que ele saísse.
A Biblioteca ostenta como seu patrono um dos grandes nomes da teologia católica do séc. XX: Henri de Lubac. Foi um dos grandes nomes que prepararam e assessoraram a elaboração dos documentos, principalmente eclesiológicos, do Vaticano II. Seu nome era e ainda é citado por aqueles que buscam pensar a renovação da Igreja para que ela possa dar novas respostas aos novos desafios que a realidade exige para o anúncio e o testemunho da Boa Nova.
Já as salas de aula destinadas ao Mestrado em Teologia tinham nomes que para mim não eram nada familiares. As salas Elie Blanc e Joseph Tixeront eram as mais usadas. Enquanto estudante em Lyon, nunca me interessei por saber quem haviam sido aqueles personagens. Mas, como a vida dá voltas, quase vinte anos depois, tive que dar resposta àquelas interrogações que naquele tempo não me coloquei. Em minha pesquisa de doutorado, encontrei a informação de que alguns dos mais destacados capuchinhos franceses que lecionaram no Seminário Madre de Deus de Porto Alegre entre os anos de 1903 e 1913, haviam sido alunos, na Universidade de Lyon, dos professores Elie Blanc e Joseph Tixeront! E lá fui eu buscar informações sobre aqueles dois nomes das salas de aula em que eu havia estudado...
Descobri então que Eli Blanc (1846-1926) foi um eminente representante do neo-tomismofrancês do final do séc. XIX e início do séc. XX. Intelectual de grande envergadura, foi filólogo, filósofo, teólogo, jornalista e político. Distinguiu-se por ensaiar um diálogo entre as ciências e a Teologia cristã e por preocupar-se com a inserção do cristianismo na realidade social. Por sua mentalidade inovadora, teve problemas com as autoridades eclesiásticas de então e teve que retratar-se de suas proposições.
Já seu colega, Joseph Tixeront (1856-2925), foi um religioso sulpiciano, historiador e teólogo. Sua obra mais conhecida é “História dos dogmas na antiguidade cristã”. Publicada em três volumes, entre 1905 e 1912, a obra foi uma das primeiras tentativas, no mundo católico, de estudar criticamente o desenvolvimento da doutrina da Igreja nos primeiros séculos. Em 1913, sob acusação de modernismo, foi obrigado a retratar-se, diante do bispo de Lyon, a respeito de algumas de suas proposições teológicas. Segundo as autoridades eclesiásticas, sua afirmação de que os dogmas mudam para dizer a mesma verdade de fé de modo diferente, colocava em risco a verdade da fé cristã e a estabilidade da Igreja em sua luta contra a modernidade. Em nome da imutabilidade das formulações dogmáticas, Elie Blanc e Joseph Tixeront perderam suas cátedras na Universidade Católica de Lyon.
Anos depois, já em tempos conciliares, a memória de Elie Blanc e Joseph Tixeront foi resgatada, sua obra reabilitada e seus nomes passaram a adornar as salas de aula da Faculdade de Teologia como a dizer que, aquelas condenações do início do séc. XX, haviam sido um erro.
Um dos discípulos dos eminentes mestres franceses, Frei Léandre de Bellevaux, foi professor de Filosofia dos formandos capuchinhos em Flores da Cunha até o ano de 1908 e, de 1908 a 1913, ensinou no Seminário de Porto Alegre. Assim como seus mestres, Frei Léandre também teve problemas com os defensores da imutabilidade do dogma. Em 1913, mesmo ano em que retornou à França, foi formalmente denunciado ao Santo Ofício por questionar elaborações teológicas oriundas do tomismo, então considerado teologia oficial da Igreja.
Em 1915, Frei Léandre estava prestando serviço militar numa unidade de produção química em Lyon e ali morreu em consequência de ferimentos sofridos durante um bombardeio alemão sobre a cidade. Lyon. Mesmo morto o frade, seu processo no Santo Ofício continuou. Foi apenas em 1941, vinte e seis anos depois de sua morte, que o processo contra ele foi arquivado. Afinal, assim como os dogmas demoram a mudar, a mentalidade dos que defendem a letra sem se preocupar com a verdade, também demora a mudar. Feliz ou infelizmente, há feridas que só o tempo cura.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Pobre diabo!

Dentre as muitas surpresas que a dialética da história e o Espírito Santo nos reservam, está o Papa Francisco. Ninguém de nós, em sã consciência, poderia esperar que do Conclave que escolheu o sucessor de Bento XVI surgissem um Papa argentino que assumisse o nome e o espírito de Francisco de Assis. E aí está ele hoje, em seu ainda curto e denso pontificado, assumindo a condição de única inconteste liderança moral da humanidade.
Seus gestos e suas palavras, solenes ou banais, não deixam ninguém indiferente. Há os que são radicalmente contra e os que são radicalmente a favor. A razão disso, penso eu, deve-se a que ele se atém à simplicidade do Evangelho: Deus quer a libertação e a salvação de todos e todas!
Essa é a alegre notícia da qual o Papa quer ser anunciador. Seu documentos magisteriais expressam-na nos títulos: Evangelii Gaudium, Laudato Sì, Amoris Laetitia, Gaudete et Exsultate. E tudo iluminado pela Misericordiae Vultus.
Na última Exortação Apostólica por ele publicada, a Gaudete et Exsultate, Francisco chama a atenção para duas pedras de tropeço dos católicos que buscam a santidade. Segundo ele, são heresias clássicas que, por nascerem da própria condição humana, “continuam a ser de alarmante atualidade”. Trata-se do gnosticismo e do pelagianismo. O primeiro, o gnosticismo, apresenta “uma mente sem Deus e sem carne”. Trata-se de “uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos”. É uma fé individualista, egoísta, que busca a própria satisfação e por isso é incapaz de abrir-se a Deus e ao irmão necessitado.
No outro extremo está o pelagianismo, ou a religião daqueles que creem que podem salvar-se por suas próprias forças. É uma “vontade sem humildade” que esquece que somos justificados unicamente pela graça de Deus.  O moderno pelagianismo, segundo Papa, “manifesta-se na obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial.”
Creio que todos nós, de uma forma ou de outra, nos sentimos exortados à conversão por estas palavras, tanto no agir pessoal enquanto cristãos, como no nosso atuar eclesial e social. Todos trazemos em nós algo de gnóstico ou de pelagiano e, como afirma constantemente o Papa Francisco referindo-se a si mesmo, somos pecadores e necessitamos do perdão e da misericórdia de Deus.
Lendo a Gaudete et Exsultate e suas advertências contra as versões modernas de velhas heresias, veio-me à mente uma outra velha heresia que também foi reciclada pela modernidade e não é abordada pelo Papa. Trata-se do maniqueísmo. De origem pagã, o maniqueísmo foi, nos primeiros séculos, um forte concorrente do cristianismo. Agostinho de Hipona, o grande teólogo do primeiro milênio, durante nove anos militou nas fileiras do maniqueísmo e, ao converter-se ao cristianismo, teve que enfrentar a grande questão que aquela doutrina solucionava com enorme facilidade: unde malum? De onde vem o mal? Por que o mal existe? Por que fazemos o mal?
O maniqueísmo tinha uma resposta fácil: há um deus bom e um deus mau. O primeiro é fonte de tudo o que é bom e o segundo de tudo o que é mau. E o universo também está dividido em duas esferas, a do bem e a do mal. Do mesmo modo a humanidade e cada ser humano.
Mas se afirmamos, como faz o cristianismo, que Deus é um só, que Ele é bom e que tudo foi criado por Ele no amor, a questão se torna mais exigente, como bem o demonstra Santo Agostinho nas “Confissões”: “E, uma vez que Deus, sendo bom, fez todas as coisas boas, donde vem então o mal? Será que, naquilo donde as fez boas as coisas mais pequenas, mas no entanto, tanto o Criador é bom como são boas todas as coisas criadas. Donde vem então o mal? Será que naquilo donde as fez, havia alguma matéria má, e formou-a, e ordenou-a, mas deixou nela qualquer coisa que não teria transformado em bem? E porquê isto? Será que, embora não sendo omnipotente, não tinha poder para transformá-la e mudá-la na totalidade, de modo a que nada de mal restasse? Finalmente, porque é que quis fazer dela alguma coisa e não preferiu fazer, com a mesma omnipotência com que ela não existisse em absoluto?”
Na sua argumentação, tanto nas Confissões como nos outros escritos, o bispo de Hipona refuta a afirmação de que Deus, direta ou indiretamente, seja a fonte do mal. Para Agostinho, tanto pelo caminho da lógica filosófica como o da tradição judaico-cristã, o mal existe por causa do pecado humano, seja o “pecado do mundo” que herdamos de nossos pais seja o pecado resultante de nossas opções pessoais.
Lembro do maniqueísmo ao ver tantos cristãos, católicos inclusive, obcecados pela ideia do demônio. Ao passar por certas igrejas e presenciar certos cultos – missas também! – parece que há uma preocupação maior com o diabo que com Deus. Na televisão então, é atroz! Cultos de cura e libertação, exorcismos, sessões de descarrego e outros aos quais é até difícil dar um nome, afirmam, clara ou sub-repticiamente, que o diabo tem tanto ou mais poder que Deus. E isso é maniqueísmo. Santo Agostinho ficou para trás... Foi vencido pelos novos maniqueus que, dizendo que cultuam a Deus, na verdade prestam culto ao demônio.
Que o diabo, existe, não nego! O Papa Francisco, na Gaudete et Exsultate, ocupa vários parágrafos com a questão. E afirma que o diabo não é um mito, mas uma realidade pessoal. E que, para combatê-lo, não há necessidade de ritos mirabolantes. Basta “a fé que se expressa na oração, a meditação da Palavra de Deus, a celebração da Missa, a adoração eucarística, a Reconciliação sacramental, as obras de caridade, a vida comunitária, o compromisso missionário”. É esse modo de ser cristão que afasta do Maligno e nos mantém firmes em Jesus no caminho do Reino do Pai.
Não coloquemos, pois, toda a culpa no pobre diabo. No inferno, onde ele habita, deve haver suficientes problemas com os quais ele tem que se ocupar. Não criemos mais problemas para ele. Que descanse em paz!

terça-feira, 29 de maio de 2018

A banalidade da violência

Para os que se aventuram pelos campos da Filosofia, da Literatura ou do Cinema, certamente não lhes soa estranho o título deste despretensioso texto. Como já intuíram, inspiro-me abertamente na obra da filósofa Hannah Arendt. Entre suas obras, a mais conhecida é, sem dúvida, “A banalidade do mal”. Publicada como livro em 1963, ela reúne a série de reportagens por ela produzidas para o “The New Yorker” por ocasião do julgamento do oficial do exército alemão Adolf Eichmann. A obra ganhou como título “Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal”. Tal foi o impacto da obra que foi versada em filme pelo menos dez vezes. A última e mais contundente – pelo menos do meu ponto de vista – foi a lançada em 2012 por Margarethe von Trotta.
O impactante da obra é que, Hannah, ao relatar o julgamento de Eichmann, apresenta-o de uma forma diferente do esperado pelos leitores do “The New Yorquer” e, de modo especial, pela comunidade judaica. Todos esperavam uma descrição de um oficial alemão irascível, violento, sanguinário e monstruoso assim como monstruosa tinha sido a Segunda Guerra Mundial e, nela, o extermínio de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais protagonizado pelo regime nazista e seus aliados. O Eichmann descrito – e tão bem representado no filme de Margarethe von Trotta – é uma pessoa normal, calma, tranquila e que responde com toda serenidade às perguntas que lhe são feitas e se sente inocente de todas as atrocidades cometidas. Na sua consciência, ele apenas obedecera ordens recebidas de seus superiores hierarquicamente estabelecidos na esperança de ser recompensado e assim poder galgar os degraus da burocracia e garantir os recursos econômicos que permitissem à sua família viver uma vida de segurança e tranquilidade.
Diante do fato, a filósofa se pergunta: como é possível tal consciência diante da brutalidade dos crimes cometidos? Fugindo da resposta fácil que responsabiliza um indivíduo em particular pelos males da humanidade, ela compreende o mal não como uma entidade metafísica em si mesma ou um dado natural inerente à condição humana e muito menos como uma perversão individual da condição humana de per si boa. Para Hannah Arendt, o mal tem uma natureza política e histórica. Ele é produzido pelos seres humanos e encontra guarida e se expande a partir de opções coletivas conscientes e deliberadas. Assim, o nazismo, por exemplo, não é fruto da mente perversa de Adolf Hitler ou de seus sequazes mais próximos, mas é resultado das condições históricas vividas na Alemanha no pós-guerra e da opção política da maioria dos alemães que a ele aderiram.
Tal análise que foge da obviedade de culpar um indivíduo pelo mal existente chocou a comunidade judaica norte-americana e a filósofa amargou o ostracismo que lhe foi imposto. E isso não foi sem razão. De fato, o argumento por ela desenvolvido deixava um sério questionamento no ar: não podemos nós, que ontem fomos vítimas, nos tornarmos amanhã vitimários e produzir atrocidades que se comparem às que hoje denunciamos? A história da relação entre o Estado de Israel e os árabes-palestinos mostra que há razões de sobra para se pensar nisso...
Mas meu objetivo era outro ao iniciar esta crônica. Como veem, meu propósito não era falar da banalidade do mal, mas da banalidade da violência. Afinal, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Sem que aqui haja guerra alguma, somos o 10º país com o maior número de mortes por armas de fogo. Dentre as 50 cidades mais violentas do mundo, 17 estão no Brasil. E a violência é seletiva. O maior índice de mortes acontece entre jovens, jovens negros, jovens negros com baixa escolaridade, mulheres, pessoas LGBT e indígenas.
É aqui que entra Hannah Arendt. Se seguimos sua argumentação, estas mortes não são casuais. Elas têm uma natureza política e histórica. O assassinato da vereadora Marielle Franco – ainda não elucidado, diga-se de passagem – mostrou isso de forma gritante. Por que ela? Mulher, pobre, negra, favelada, lésbica, defensora dos direitos humanos... Havia alvo melhor que ela para demonstrar a opção política e histórica da violência?
Meu temor é que, como sociedade, tornemos a violência banal e persigamos apenas atingir o índice de violência tolerável segundo os indicadores da Organização Mundial da Saúde: 10 mortos a cada 100 mil pessoas! E a partir deste índice básico passemos a tolerar outras formas de violência socialmente produzidas, seja por grupos sociais marginais, seja pelo Estado enquanto representante dos grupos sociais dominantes. E há indícios preocupantes! Pelo lado dos marginais, temos os verdadeiros “estados paralelos” criados pelas associações de traficantes nos presídios e nas periferias das grandes cidades. Com eles competem as milícias formadas por policiais na ativa ou já afastados das corporações militares. E não é só no Rio de Janeiro. Em todas as capitais e nas cidades médias do interior isto é notório.
Mas temos também os insistentes pedidos de intervenção militar nas manifestações políticas que iniciaram em 2013 e se prolongam até hoje. Depois ressurgiram os militares pronunciando-se publicamente sobre questões políticas sem que as autoridades desautorizassem tais pronunciamentos. E a escalada da normalização da violência galgou degraus com a intervenção militar no Rio de Janeiro que, ao invés de diminuir, aumento a violência nos bairros pobres e favelas. E hoje, enquanto escrevo estas linhas, o Presidente em exercício enviando os militares para reprimir a manifestação. Será que não nos estamos acostumando muito facilmente com a banalização da violência e já não somos capazes de reagir à sua normalização como forma de regular a convivência social?
Os monstros não caem do céus nem surgem do nada. Como nos ensinou Hannah Arendt, os monstros são frutos de construção histórica e política. E a política, a arte de conviver com o diferente, é a única forma de combatê-los.