terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ver o invisível

Estamos tão habituados com o fato de enxergar, que dificilmente nos imaginamos cegos ou impedidos de ver. O mundo, tal qual o organizamos, é um mundo de videntes e para videntes. Uma pessoa que não enxerga tem muita dificuldade para habituar-se e conviver no mundo ordinário.
Estamos tão acostumados com o verbo ver que, mesmo quando a experiência se refere a outros sentidos, usamos, para indicá-la, muitas vezes, a expressão “ver”: “Viu” que música bonita? “Viu” como fazia calor? “Viu” o cheiro daquela coisa? Vivemos, mentalmente, uma dominância do sentido da visão.
E isso porque a visão é o sentido da dominação. Quando chegamos a um lugar novo - tal qual cães que vão sinalizando o território através de sinais odoríferos urinários - nosso primeiro instinto é dar uma volta para ver o que existe naquele lugar. Dificilmente paramos para ouvir, cheirar, apalpar, saborear... Queremos ver! E, de preferência, ver do lugar mais alto para ter uma visão ampla, abrangente, dominadora.
Hoje, mais do que nunca, a imagem é a rainha da comunicação. Quem não é visto, não existe. Nas redes sociais, o ideal é alcançar o máximo possível de visualizações. Uma postagem, em qualquer uma das redes sociais, se não é visualizada, é como se não existisse.
E, como todas sabemos, quanto mais chamativa ao olhar for uma foto, mais visualizações ela terá. Uma postagem sem foto, é muito provável que passará desapercebida nas redes sociais!
Por outro lado, somos incapazes de ver o nosso próprio rosto. Só podemos vê-lo no espelho. Mas o espelho não somos nós. Diferentemente do que muitos pensam, o espelho é apenas o reflexo do nosso rosto, e não o nosso rosto. Muitas vezes esquecemos isso e pensamos que o que vemos no espelho somos nós...

Por isso, talvez, seja verdadeiro o que dizia o Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”. É a ânsia insaciada e insaciável de ver o próprio rosto que nos leva ao desejo infindo de ver imagens que, esperaremos eternamente sem nunca sermos satisfeitos, reflitam o rosto que somos. Mas, feliz ou infelizmente, precisamos nos conformar ao fato de que não teremos jamais a possibilidade de nos divisarmos a nós mesmos tal qual somos. E esse é um desejo eterno que pode nos levar, tal qual novos Narcisos, à morte pela inanição contemplativa do próprio rosto invisível.

domingo, 30 de julho de 2017

Escutar o silêncio.

Quando falamos dos sentidos, é temerário dizer que este ou aquele tem maior ou menor capacidade de despertar sentimentos. Todos eles tocam o mais íntimo de nosso ser e por isso são capazes de fazer soar as cordas mais íntimas da nossa existência.
Mas talvez nenhum deles tenha sido usado de forma tão massiva para produzir e estimular sentimentos como a audição. E o grande canal para isso, é a música. Cada ritmo parece tocar uma tecla de nosso ser. Uma música relaxante nos ajuda a entrar em nós mesmos, a nos situarmos frente ao universo, a colocar em harmonia nossos interior e buscar a sintonia com o exterior. Um samba convida para a festa, a convivência, a camaradagem. Uma milonga é o ritmo perfeito para expressar a dor que vai no coração, as tristezas da vida, os sofrimentos do peão e do trabalhador que tem a sua vida marcada pela penúria e pelo labor. O tango faz descer as lágrimas da perda do amado ou da amada, a tristeza de sentir-se abandonado por quem se ama e a solidão incompreendida. A marcha convida para a luta, para a guerra, para a conquista dos direitos. Quem não se sente entusiasmado ao ouvir soar as notas da Marseillese e seu Allons enfants de la patrie, le jour de gloire ést arrivé... Ou então, a Internacional socialista e “De pé, ó vitimas da fome! De pé, famélicos da terra! Da ideia a chama já consome, A crosta bruta que a soterra.” E um funk, que sentimentos desperta em nós? Talvez nós, que já passamos dos 50, não estejamos acostumados com esse ritmo as letras agressivas que o acompanham. Mas hoje ele é o mais popular nas periferias das grandes e também das pequenas cidades. E especialmente entre os jovens. Talvez seja a única forma que eles encontram para fazer-se ouvir por uma sociedade surda aos seus clamores.
Uma peculiaridade da audição, é o fato de ser um sentido principalmente passivo. Nós dificilmente podemos barrar os sons que chegam até nós. Eles entram nos nossos ouvidos, nos invadem, tomam conta de nós. Quem já não foi acordado pelo som ensurdecedor de um avião a jato passando rasante, ou uma explosão, um tiro... ou pelo grito de um vizinho, de uma criança agredida, de uma mãe que teve seu filho assassinado? Ou pelo grito de gol, de vitória, de alegria! Podemos nos isolar, colocar barreiras, tapar os ouvidos, mas, quando menos esperamos, o som aí está impondo-nos sua verdade.
Mas o ouvido também pode ser educado. E ele é educado, mesmo que nós não nos demos conta. Ele é conformado pela cultura em que vivemos. Nós ocidentais, estamos acostumados a ouvir 12 notas musicais. Nossa escala sonora é duodecimal. Já os gregos, os chineses e os escoceses, eles só ouviam cinco notas. A música árabe tem uma escala de 16 notas. Os indianos, por sua vez, tem um ouvido muito mais apurado e são capazes de distinguir 22 notas musicais. Por isso nós, ocidentais, educados para escutar apenas 12 notas, temos dificuldade em compreender a complexidade da música árabe e da música indiana. Nos escapam praticamente metade dos sons emitidos pelos seus instrumentos e pelas suas vozes.
Mas existe também o som do silêncio. É algo que está se tornando cada vez mais difícil de ser encontrado na nossa civilização cheia de apelos sonoros. Numa cidade grande, é muito difícil poder estar em silêncio. Seja de dia, seja de noite, em nossas casas ou em qualquer outro lugar onde nos encontremos. É preciso sair para longe, fora das cidades, longe da civilização, para poder escutar o silêncio. E como ele fala... Nossos povos nativos são especialistas em cultivar o ouvido para o silêncio. Por isso são capazes de ouvir os sons das flores, das plantas, das árvores, dos animais, dos rios, das pedras... E como eles e elas falam. Com suas vozes próprias, com suas músicas específicas.

No silêncio, tudo fala! Até mesmo aquilo e aqueles e aquelas que nós não gostaríamos de ouvir. É preciso reaprender a escutar o silêncio.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ANDO DEVAGAR...

Ando devagar porque já fui multado. Mais de uma vez... Verdade que nunca foi por exagero. Ainda tenho pontos na carteira para continuar dirigindo. Minhas multas foram daquelas multas idiotas. O limite era 50 sobre a ponte do Rio Gravataí, na Rodovia do Parque. Passei a 63. Demorou mais de três meses, mas ela chegou. Descendo a BR 470, de Carlos Barbosa em direção a São Vendelino, o limite era de 60 por hora e eu fui flagrado, por um radar móvel, aquele tipo “secador de cabelo”. O policial estava escondido atrás de uma árvore, logo depois da curva. E eu a 73 quilômetros por hora. Coisa mínima. Um pouquinho além do limite. Mas o suficiente para ter os pontos na carteira de motorista e uns reais a menos na carteira onde guardo o pouco dinheiro que ganho.
Tem outra multa que ainda estou esperando. Na mesma BR 470, na passagem por Bento Gonçalves. De novo o policial rodoviário escondido atrás de uma curva. Com a federalização, a estrada melhorou muito, há que se reconhecer. Não tem mais buracos, a sinalização é boa, iluminação e radares. Tudo bem... O pessoal que estava acostumado com a buraqueira, agora que a estrada está boa, tem a tentação de recuperar o tempo perdido. Daí a razão dos radares móveis e das multas. Mas a minha multa foi injusta. Verdade que todos dizem isso! Mas eu explico e peço sua consideração. Depois do último pardal fixo, onde a velocidade é de 50, você vê o sinal de que pode andar a 60, depois a 80, aí, 200 metros depois, a velocidade volta a 40. Sem nenhuma razão aparente, 300 metros adiante volta a 60, depois a 80 e, subitamente, depois da curva, lá está a placa de 50 quilômetros por hora. E aí já não há tempo para reduzir a velocidade. O policial aí está, impávido, com o olho na mira acompanhando o deslocamento do carro. O alvo é a placa. Não tem apelo! Só esperar o golpe.
O mesmo ocorre no entorno de Carlos Barbosa, Veranópolis e Vila Flores que também são cruzadas pela BR 470. Não há uma lógica para as velocidades estabelecidas. Parece que juntaram um monte de placas com números diferentes e foram espalhando-as aleatoriamente ao longo do caminho. Essa forma ilógica de dispor as placas parece ser a única lógica plausível no caso.
Mas, e é aí que eu fico ainda mais espantado, é que, se você tenta obedecer à sinalização e rodar nas velocidades estabelecidas, aí você corre um sério risco muito maior que o da possível multa. O risco de ter seu carro abalroado por alguém que vem atrás. Aí estão as placas com seus números implacáveis, você segue a velocidade indicada e atrás vem um, dois, três, vários carros, camionetes, caminhões com dois, três, quatro eixos, bitrens e tudo mais que anda sobre duas, quatro, seis, oito ou não sei quantas rodas, dando luz alta em pleno dia, sinalizando que vão ultrapassar, buzinando, acenando com o braços, insultando sua linhagem materna até a sétima geração, afirmando aos berros que sua mulher sai com todos os homens da cidade e que você não pode mais passar por baixo dos fios de alta tensão, duvidando de sua identidade de gênero, mandando você prá tudo o que é lugar, inclusive aquele... Tudo isso para reclamar que você está andando na velocidade estabelecida para aquele trecho. E todos eles sabem que, atrás da próxima curva, pode haver um policial com um “secador de cabelo” na mão, mirando para você, para eles, para todos nós e que, em breve, a temida multa chegará a nossas casas.
Sinceramente. Não entendo nem uma coisa nem outra. Mas fiz o estoico propósito de que não vou me alterar nem com a ilógica distribuição das placas de velocidade e nem com os intrépidos colegas de volante que sabem que podem ser multados, mas continuam insistindo em andar em velocidades superiores às estabelecidas.

Para me ajudar a manter o propósito, no pen-drive que me acompanha nas viagens, entre outras músicas, a impagável do Almir Satter: “Ando devagar porque já tive pressa...” 

sábado, 15 de julho de 2017

Um novo mundo é possível!

Tempos difíceis os que estamos vivendo. Tão difíceis que se tornam assustadores. Você liga a televisão e, quem aparece? O Trump e seu topete! Você troca de canal e quem te sorri? O Putin. E todos conhecem o sorriso do Putin: não existe. Nunca vi o Putin sorrir. Por que será? Outro canal e agora é o eterno sorriso banqueiro do jovem recém-eleito à Presidência da França. E aí você se pergunta: por que o Macron está sempre sorrindo? Desconfie de quem nunca sorri e desconfie também de quem está sempre sorrindo. Alguma coisa ambos estão tentando disfarçar com seu eterno não-sorriso ou com seu eterno sorriso. Para não ficar só em figuras masculinas: alguém poderia me informar se já viu a Angela Merkel sorrir? Não naquelas fotos de campanha retocadas por sofisticados programas. Numa situação real, alguém lembra de um sorriso da Merkel?
Cansado de notícias internacionais? Pense nas nacionais. É ainda mais assustador. Procuradores vendendo palestras onde prometem revelar de primeira mão informações obtidas através de confissões forçadas. Juízes absolvendo ou condenando não na base de provas, mas de convicções. Deputados e senadores fazendo leilão de seu voto a favor ou contra a cassação de um Presidente ilegítimo que apresenta como principal conquista de seu efêmero governo o aumento do desemprego. E esse mesmo que se faz passar por Presidente comprando votos daqueles que não querem vê-lo cair porque a instabilidade lhes é favorável. São deputados profissionais. Eles são cascudos e sabem que, em rio que tem piranha, jacaré nada de costas. Partidos que afirmam que sua diferença consiste em roubar sem ser flagrado na ilegalidade. Sindicalistas defendendo uma reforma trabalhista que faz os trabalhadores voltarem à condição de escravos. Talvez sonhem em serem promovidos a capitão-do-mato. É um progresso prá trás. Um vereador negro da maior cidade do país furioso porque a universidade mais elitista do Brasil aderiu ao sistema de quotas econômicas e raciais. Empresários que defendem a eficácia da iniciativa privada enquanto se locupletam com o dinheiro roubado do erário público. A polícia agenciando e armando ladrões e traficantes. E, na base de tudo, eleitores que reclamam da corrupção dos políticos enquanto buscam um vereador, deputado, prefeito ou governador para conseguir uma vaga para seu filho no serviço público, na universidade, no hospital...
Em meio a tudo isso fui convidado para, num final de semana, assessorar um encontro de uma pequena congregação de Vida Religiosa no interior de São Paulo. Congregação nova, aprovada há pouco mais de 50 anos. Ostentam o sugestivo nome de “Filhos da caridade” os homens e “Filhas da caridade” as mulheres. Os religiosos e religiosas são poucos. A maioria do grupo é composta de leigos e leigas que vivem o carisma da Congregação.  Além de paulistas de várias cidades, há também cariocas e maranhenses. Há uma senhora que anda apoiada numa bengala. Homens e mulheres já de cabeça branca. Mas também um grupo significativo de jovens com toda a energia da idade. Negros e brancos. Alguns apenas alfabetizados. Outros com curso superior. Casados e solteiros. Trabalhadores e trabalhadoras de vários segmentos e micro e pequenos empresários. E, para aumentar a diversidade, argentinos vivendo no Brasil, um irmão religioso provindo da Tanzânia, outro da Itália, da Índia, das Filipinas e do Timor Leste. E aí a Língua Portuguesa se mistura com o Espanhol, o Inglês, o Italiano, o Tetum, o Suaíli, o Malaio... Pluralidade total! E todos e todas se entendem ao falar a linguagem comum da caridade  no desejo e no compromisso de servir aos mais pobres e necessitados em cada distinto lugar em que vivem. Jovens desempregados na Itália, doentes e anciãos na Tanzânia, órfãos na Índia, feridos na guerra do Timor, moradores de rua nas Filipinas, jovens em situação de risco no Brasil.
Um pequeno sinal, uma pequena experiência. Minúscula, ínfima, invisível na própria cidade em que acontece e que não aparecerá em nenhum noticiário. Mas um sinal, sim, de que um novo mundo é, sim, possível! Sinal de uma Vida Religiosa profética que continua a testemunhar o sonho do Reino de Deus. E sonhar, mais do que nunca hoje, é preciso! Pois sonhar, é o único caminho para sair do pesadelo mundial e nacional que estamos vivendo.

sábado, 1 de julho de 2017

A reforma trabalhista tá na Bíblia!

Não foi o Temer que inventou a reforma trabalhista. Ele faz parte dela. Mas talvez não seja a principal. Ele é a cara visível – e risível, segundo alguns – deste projeto. Mas o projeto não é dele. É anterior a ele. Sua sorte ou azar, dependendo do ponto de vista, foi a de estar no lugar apropriado para apropriar-se de um projeto que outros tantos já costuravam nos socavões do poder que não ficam exatamente em Brasília.
Mas como ele estava no local indicado, no momento indicado e parecia ser o homem indicado, foi alçado à Presidência com a tarefa de levá-la adiante. Não fosse ele, seria outro. E, se não for ele, os verdadeiros donos dos fios que mandam e desmandam, vão tentar colocar outro.
Mas a história sempre foi assim. E falo de história longa. Aquela que no nosso imaginário ocidental parece ser a mais antiga, a história bíblica. Há poucos dias me dei conta que a primeira proposta de reforma trabalhista está no Antigo Testamento. Bem lá no início, no Livro do Êxodo, quando Moisés foi, a mando de Deus, pedir que o Faraó desse o descanso semanal para os escravos hebreus. O Faraó, no lugar de atender as reivindicações, fez uma Reforma Trabalhista: tirou todo e qualquer dia de descanso, aumentou a carga horária diária de trabalho, reduziu o pessoal e aumentou as metas de produção. E ainda tentou convencer os próprios hebreus de que eram preguiçosos e deviam trabalhar mais. Ocupados, não dariam ouvidos a loucos sindicalistas como Moisés.
Para sorte de Moisés e dos hebreus, eles tinham Deus por aliado! Ele ajudou os israelitas a fugir. Mas não foi fácil... Antes teve que usar o terror das pragas para convencer o Faraó e seus capatazes de que deveriam deixar o povo ir em paz. Rãs, mosquitos, moscas, peste nos rebanhos, doenças nos humanos, chuva de pedras que mataram animais e destruíram plantações, nuvens de gafanhotos e três dias de escuridão. A cada praga, o Faraó se arrependia, mas, em seguida, vendo o prejuízo que lhe podia acarretar a folga de três dias que os hebreus pediam, voltava atrás. Foi só com a devastadora morte dos primogênitos que o Faraó finalmente deixou os hebreus partirem. Mas depois se arrependeu, tomou seu exército e foi atrás deles para impedir que atravessassem o Mar Vermelho e saíssem de seus domínios. E dessa parte da história todos lembram o fim...
Voltando à reforma trabalhista de 2017: quantas e quais pragas do Egito serão necessárias para que os faraós neoliberais adoradores do deus-mercado se convençam a deixar o povo descansar, pelo menos uma vez por semana? Oxalá Deus não tenha endurecido seu coração a ponto de exigirem a morte dos próprios primogênitos e, num gesto de insana teimosia, deixarem-se tragar pelas revoltas águas do Mar Vermelho.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O terno não faz o treinador

Falar de futebol é sempre arriscado. Principalmente no Brasil. Aqui, as rígidas regras do esporte bretão foram dribladas pela ginga e criatividade típicas do brasileiro. Com vantagens e desvantagens. O lado bom da flexibilização é que proporcionou o surgimento dos Garrinchas, Romários e Túlios que encantaram o mundo e nos deram tantos títulos. Por outro, nunca tivemos em nenhuma equipe brasileira um Alex Ferguson e suas duas décadas e meia à frente do Manchester. Nos campeonatos brasileiros, o normal é que nenhum time inicie a temporada e vá até seu fim com o mesmo elenco e o mesmo treinador.
Por falar em treinador, é sabido por todos que nenhum brasileiro conseguiu se firmar à frente de uma equipe europeia. Não por incompetência. A causa é cultural. Na última final da Champions League em que o Real Madrid massacrou a Juventus, era interessante a figura dos dois treinadores, Zinedine Zidane na esquadra espanhola e Massimiliano Allegri na turinesa. Os dois foram jogadores de futebol e agora estavam à beira do campo. Os dois de terno. Meio desalinhado o de Zidane, é certo. Mas sempre um terno, clássico, elegante. O de Allegri, então, perfeito, italiano. Só isso diz tudo. Os dois com gestos comedidos como cabe a um treinador... europeu. Emoção mínima. Eficiência máxima.
Quanta diferença com um Abel Braga, Joel Santana, Murici Ramalho, Renato Gaúcho... só para falar em alguns da atualidade. Estes não cabem dentro de um terno. O Renato até que tenta usar camisas sociais, mas a calça é jeans e, no pé, os tênis. De marca, óbvio. Mas não são sapatos italianos! São tênis. Roupa esportiva e não executiva.
No auge da carreia, o Wanderlei Luxemburgo foi treinar o Real Madrid. Fracassou. Não tinha o perfil europeu. Mas voltou de lá vestindo terno à beira do gramado. Dunga, talvez pela longa experiência como jogador na Itália, ao assumir como treinador no Brasil, também primava pela roupa social. De elegância duvidosa em certas ocasiões, como todos pudemos notar. Também não deu certo. Mais recentemente, aqui na Província de São Pedro de Rio Grande, outro treinador com passagem pela Europa como jogador, passou a dirigir uma da Série B, fardado com elegantes ternos italianos. Fracassou rotundamente... Ele vestia terno italiano. Mas não tinha jogadores italianos. Nem treinava um time italiano. E nem participava de um campeonato italiano. A realidade que estava à sua frente não se transformava pelo fato de ele usar um terno italiano.
Lembro disso tudo ao reparar o cenário político brasileiro e seu messianismo mágico. Personagens que vestem um traje – de presidente, de juiz, procurador, ministro, senador, deputado, prefeito... – e acham que isso é suficiente para que todos os considerem como tal e submetam-se a seus ditames. Pelo simples fato de usarem um terno, uma faixa, uma toga, acham que tem autoridade. Mas para ser autoridade, é preciso muito mais. É preciso o respaldo do povo, da nação, da urna, da democracia.

Por isso, mesmo admirando a eficácia do futebol europeu, ainda prefiro nossos Garrinchas, Romários, Abeis, Joeis, Muricis, Renatos... que não vestem ternos e togas, mas tem o jeito e a ginga do povo brasileiro, falam a linguagem do povo brasileiro e, sem sonhar em ser espelhos cacofônicos da Europa, ganham títulos com o povo brasileiro.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Harakiri



 Em japonês, seu nome é Seppuku. No Ocidente, tornou-se conhecido como haraquiri. Em qualquer uma das versões, literalmente, significa “cortar o ventre”. As primeiras informações de sua existência remontam ao século XII. No século XIX, foi proibido. Reservado aos samurais, o ritual surgiu primeiramente como prova de lealdade, mesmo na morte, do samurai ao seu senhor. Com o tempo, passou a ser executado como forma de resgatar a nobreza de um samurai que traíra ao seu senhor ou infringira o código de honra dos guerreiros.
O harikiri era uma cerimônia pública. Após ter obtido autorização de seu senhor, o samurai, devidamente trajado, ajoelhava e, tomando sua espada ou punhal, realiza primeiro o kiru, um corte horizonte, abaixo do umbigo (em japonês, hara), da esquerda para a direita. Em seguida, se lhe restavam foças, fazia outro corte no sentido vertical, de baixo para cima. As vísceras deviam ser versadas para fora para provar a honradez. Feito isso, entrava em ação o kaishakinin que, num golpe de misericórdia, realizava a decapitação final.
Mesmo identificada com a cultura oriental, a prática de tirar a própria vida como um modo de ter morte digna, foi comum também na Roma antiga. Chefes militares e soldados, na iminência de serem aprisionados pelos inimigos, optavam por cravar a espada em si mesmos. Como nos atesta a Bíblia no livro dos Atos dos Apóstolos, qualquer funcionário público que falhasse no cumprimento do seu dever, salvava sua honra tirando a própria vida (At 16, 25-28). Mas o ato era mais habitual entre os funcionários mais graduados. Foi o caso do general Quintílio Varo ao ser derrotado pelos germanos. Sentindo-se culpado por não ter sabido conduzir seus soldados, cravou a espada no peito. O mesmo foi feito por Marco Antônio, aquele que se tornou famoso por ser amante de Cleópatra. Nero, sem coragem para tal ato, pediu a um soldado que lhe cravasse a espada no coração.
Mas o método mais utilizado em Roma para morrer com dignidade era o corte nos pulsos. A história nos atesta que foi grande o número de políticos romanos que, metidos em intrigas e falcatruas, recorriam a esta prática. No fim do período de Tibério, parte significativa do Senado romano fez correr o sangue das próprias veias. Estavam todos com a honra comprometida e, para fugir à prisão e castigo, preferiram sair desta vida por própria iniciativa e assim resgatar a dignidade, mesmo que fosse depois da morte. Segundo o historiador Tácito, “por medo do carrasco preferiam morrer assim, e também porque, aos condenados, recusava-se sepultura e os bens eram confiscados, enquanto que aos que tiravam a própria vida respeitava-se o testamento e dava-se sepultura ao corpo, como recompensa”. Entre os que optaram por essa saída encontram-se os famosos Sêneca, professor de Nero, e o escritor Petrônio.
Tripas saltando para fora do ventre, espada cravada no coração, sangue jorrando dos pulsos... Cenas que, certamente, não são mais necessárias e nem desejáveis na nossa sociedade moderna e civilizada que rejeita a violência. No lugar delas, sugerimos o simples, singelo e incruento sincericídio. Se alguma noção de honra resta aos homens públicos neste momento de crise nacional, poder-se-ia apenas exigir-lhes que admitam seus crimes, deixem a vida pública, devolvam o dinheiro roubado e, num gesto de grandeza, nunca mais a ela voltem. E isso, de livre e espontânea vontade para que as mãos das vítimas não se sintam tentadas a sujar-se para fazer justiça.